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O Irlandês

Não é novidade que ‘Martin Scorsese’ é a maior referencia cinematográfica em ‘filmes de máfia’, uma modalidade criada espontaneamente e que marcou o cinema a partir da década de 70. Nesse aspecto esse diretor é um líder que arrasta muitos seguidores do gênero.

Todos se familiarizam com um narrador-personagem que é seco e ao mesmo tempo engraçado / irônico com sua própria história, tal troca de narração e planos contínuos são inovações do cineasta. Filmes como “Tropa de Elite”, “Cidade de Deus”, “Bons Companheiros”, “Cassino” e até “Beleza Americana” se utilizam desse recurso e não fazem ‘feio’. Contudo “O Irlandês” não é uma repetição do estilo ‘máfia’, mas uma homenagem. O longa retrata a vida de assassino (Frank Sheeran) a serviço da máfia, que no fim de sua vida resolve desabafar e expor seus remorsos e camuflados medos. Um personagem rico em detalhes, De Niro retrata um homem que não expressa o quanto tem medo da morte, porém a teme com todas as forças e expressões faciais.

O artifício do rejuvenescimento torna-se um pequeno detalhe diante do roteiro e atuações na trama. Scorsese consegue juntar Robert De Niro, Al Pacino e Harvey Keitel e tira Joe Pesci da aposentadoria para juntos trabalharem em uma verdadeira obra-prima que falam (como uma analogia) de si mesmos (suas vidas e suas carreiras), de como o tempo passa e ao mesmo tempo tantas perspectivas mudam. Talvez um ‘Scorsese’ de quarenta anos atrás jamais pensaria em um roteiro com tantos trechos agridoces sobre seu próprio estado de espírito. O longo tempo do filme não é um problema (3h29), porque sua proposta não foi pensada para o cinema. Caso contrário esse seria um ponto bem negativo. Vale encarar a história como uma minissérie e, apesar na duração, não se torna nenhum pouco cansativa, seus diálogos precisos e planos sequência que talvez não fosse bem explorados em um filme com muitos cortes dão um bom respaldo do porquê o filme é tão longo. A duração aqui torna-se um trunfo por causa do espaço em tela para o desenvolvimento dos personagens.

Este é um dos melhores papeis da carreira de De Niro, seu único defeito está na falta de experiência em lhe dar com tantos efeitos especiais. Na verdade isso serve para todos do elenco e também produção. Apesar do realismo e a feição rejuvenescida do ator, elas não combinam com sua voz (que mostra claramente um homem com mais de setenta anos) e principalmente sua expressão corporal com pouquíssimas movimentações e articulações. Porém, toda a carga dramática supre qualquer falha, passando bem despercebida. Al Pacino é um dos melhores atores coadjuvantes da temporada. O “brilhate” desse filme está no fato de que que todas as escolhas de ‘casts’ foram muito bem pensadas. Todos os atores simplesmente nasceram para cada papel. Pacino usa de sua ironia, frases feitas e feições singulares para nos entregar um dos personagens mais orgulhosos e teimosos da temporada. Seus diálogos são hilários.

Não podemos deixar de frisar a atuação fria e calculista de Joe Pesci que também brilha ao lado de De Niro. Fazendo um papel de Gangster. O ator passa toda a calma e paciência ao lhe dar com várias pressões e situações constrangedoras. Uma atuação peculiar, pois, suas precursões beiram o religioso com sacramentos quase papais. A proposta do filme é muito bem explorada em todos os planos e atos, principalmente ao apresentar os seus protagonistas e coadjuvantes com um texto seco e sem cor sobre em qual circunstância cada um irá encontrar a morte. Tais descrições são tão chocantes que nos levam a reflexão do quanto a vida é frágil e passageira.

Faço as palavras de Salomão as minhas: “Contudo, quando avaliei tudo o que as minhas mãos haviam feito e o trabalho que eu tanto me esforçara para realizar, percebi que tudo foi inútil, foi correr atrás do vento; não há qualquer proveito no que se faz debaixo do sol.” (Eclesiastes 2:11, Blíblia Sagrada) “O Irlandês é uma lição de vida para todos aqueles que pensam que irão viver para sempre, ou acham que não precisam aproveitar a vida de uma forma correta e ética. É um confronto com o maior assassino de todos os tempos, aquele que mais matou em toda a história da humanidade, tão imparcial, cruel e pior do que qualquer máfia ou gangster: O tempo.

Joinhas:

5

Por:

@eduardomontarroyos

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